Distorções e verdades sobre o Pilates Clássico – Por Myra Hirano

Eu e Susan Moran com quem tive a minha primeira experiência com o Pilates Clássico. Mas esse registro foi um ano depois na 12th Annual Meeting of the Pilates Method Alliance em Las Vegas – EUA- novembro de 2012. Foto: arquivo pessoal.

Assim como definir Pilates é difícil e complexo, falar do Pilates Clássico não é diferente. Eu poderia resumir em uma única frase: “Programa de exercícios, com sequências e intenções originais de seu criador Joseph Pilates”. Porém, uma técnica tão complexa quanto Pilates não pode ser restrita a esta única frase, até porque se trata de uma atividade física, onde existe uma prática corporal, complexa demais para descrevermos em uma só sentença. Com isso, o Método Pilates de linha Clássica acaba sofrendo uma distorção quanto ao seu real significado, principalmente por aqueles que nao conhecem e/ou não fizeram esse tipo de formação .

Eu com Stephanie Guimond instrutora nível IV Romana Kryzanowska no seu Studio em Londres na Inglaterra, um dos dois únicos Studios que tem formação da escola de Romana’s Pilates do Reino Unido, após uma super aula individual de Reformer e Mat Pilates. Maio 2015. Foto: arquivo pessoal.

Existem 3 características básicas para identificarmos quando se trata de uma aula do Instrutor do Método Clássico:

1 – Os exercícios utilizados para a prática são realmente apenas os criados por Joseph.

Porém existem muitas adaptações para cada indivíduo , sempre construídas pensando no corpo de cada cliente, levando em conta as suas necessidades, nunca modificando a intenção inicial do exercício e sim adaptando-o para cada indivíduo ,se preciso for, através da mudança de posicionamento de alguma parte do corpo, ou diminundo um arco de movimento, por exemplo.

Tudo em Pilates foi criado com uma razão para ser, com uma conexão coerente em suas sequências e uma progressão em seus movimentos em todo o Método.

2 – Se um instrutor de Pilates Clássico fizer o uso de outra técnica ele deixará bem claro para seu cliente que aquilo nao é Pilates e sim, a técnica tal…

Isso pode acontecer, dependendo do instrutor, mas sempre no início ou no final da aula, sempre antes ou após ter feito exercícios originais (adaptados para as necessidades do indivíduo ou não ) do Método Pilates, seja do solo ou nos aparelhos. Acontece desta forma pois o Método Pilates se diferencia de outras técnicas justamente por seus exercícios únicos, suas séries únicas e seus aparelhos feitos para esses exercícios exclusivos.

Além do mais, se eu utilizo outra técnica que é tão boa para aquele meu cliente, eu devo no mínimo informá-lo, para que ele entenda o que o corpo dele está fazendo e também em respeito e valorização das diferentes técnicas. Cada Método de condicionamento físico tem o seu valor e deve ser respeitado pelo instrutor e pelo praticante. 

3 – O Intrutor de Pilates Clássico respeita a ordem existente na sequência criada por Joseph Pilates no aparelho Reformer e na sua essência , o trabalho do Mat Pilates. Mas porque?

Porque sua ordem já é totalmente coerente, eficaz e diferenciada no que diz respeito ao aquecimento do corpo, fortalecimento, mobilização e alongamento, trabalhando em todos os planos corporais e com todos os movimentos em uma progressão, sempre preparando o corpo para o que vem a seguir. 

O que pode acontecer é adaptarmos para alunos que não são capazes de realizar certos exercícios, ou ainda porque não estão preparados, por isso vai existir uma adaptação ou omissão na sequência, continuanddo com os exercícios que aquele indivíduo é capaz de realizar. Para isso temos também os diferentes tipos de aula, para iniciante, intermediário e avançado e ás vezes podemos utilizar um acessório para facilitar essa adaptação, nunca criar um exercício aleatório no meio da aula de Pilates ou em cima de um aparelho da técnica que foge da proposta, da fluidez e do engajamento total.

Eu treinando em uma semana que estive fazendo aulas privadas com Alexandra Bohlinger, instrutora nível V Romana Kryzanowska, no True Pilates Durham na Inglaterra. Minha primeira experiência com os aparelhos clássicos da marca Gratz com as medidas originais. Abril de 2015. Foto: arquivo pessoal.

Pilates foi criado para preparar nossos corpos para se mover no dia-a-dia isentos de dor e previnir possíveis lesões, seja para uma atividade básica ou nos preparar para um esporte que iremos praticar na nossa vida. Não foi criado para produzir músculos salientes, não foi criado para utilizar muita carga, principalmente não sobrecarregar as articulações, não se deve ultrapassar o número de repetições , pois não devemos correr o risco de levar o músculo a fadiga. 

O objetivo global é obtermos qualidade de vida através do movimento. Por isso, seus exercícios originais são naturalmente funcionais, ou seja, eles reproduzem os movimentos que fazemos no dia a dia em nossas vidas, juntamente com a fluidez que garante a integração total do corpo enquanto estamos fortalecendo de forma profunda, alongando e preparando uma postura ideal através desse trabalho de corpo inteiro.
Se alguém modifica todos esses quisitos e modifica os exercicios em quantidade ao ponto de virar outro foco e perder toda a conexão da técnica, vira então outra técnica, que pode ter sido inspirada no Pilates, mas deixou de ser a mesma coisa com certeza.

A linha de Pilates Contemporânea é mais modificada mas não quer dizer melhor ou evoluída. Cada uma tem o seu valor sim. O que não podemos é aceitar que profissionais de uma linha fale inverdades da outra sem nenhum conhecimento. Ou profissionais inicialmente formados pela linha Contemporânea acharem que podem inserir exercícios diferentes, máquinas diferentes ao ponto de virar outro Método e dizer que este é um Pilates moderno e evoluído. A palavra Pilates, que ganhou seu alto valor justamente devido a sua eficácia original, está sendo totalmente prostituída no mercado a nível mundial e principalmente no Brasil.

O fato é que Contemporâneo ou Clássico, os dois são Pilates! Ambos tem o seu valor e tem suas diferenças. É muito simples entender que a forma com que a aula é conduzida é que será a maior diferença entre essas linhas. 

O problema é quando se modifica demais ao ponto de não ser mais os exercícios da técnica, ou inventar um repertório completmente novo em cima das máquinas de Pilates, e dizer que é Pilates. Ou ainda criar máquinas novas e dizer que está fazendo Pilates porque usa o abdomem como centro, utiliza uma respiração específica de Pilates (que nem existe) e tem princípios como concentração. Não será! Pilates não se resume a isso em lugar nenhum do mundo, do tempo e do espaço.

Agora confira a seguir 4 distorções comuns à respeito do Método Pilates Clássico de fontes que nunca tiveram uma formação em Clássico adequada para opinar:

1 – O Método Clássico é obsoleto e limitado. ERRADO!

A linha clássica foi denominada com o nome Clássico, pois é o trabalho mais próximo do original criado pelo seu criador, o que NÃO significa atrasado. Existem congressos de Pilates puramente Clássico, estudos e experiências de até 50 anos com esta linha no mercado. Existem considerações posturais baseadas na atual biomecânica e além disso, o Método de Joseph é naturalmente funcional, isento de sobrecargas, uma técnica que já estava à frente do seu tempo, já que foi criada em 1920 com um conceito de exercícios que se encaixam perfeitamente para a população de hoje.

Quem diz que o Clássico é limitado realmente aprendeu o método tão modificado que não teve a oportunidade de aprender seus exercícios, com as devidas intenções e condução corretas.

Como um dos exemplos concretos, podemos verificar que está catalogado 289 exercícios originais pela Pilates Method Alliance® em seu Guia de Estudo, APENAS exercícios criados por Joseph que vão do nível básico ao avançado. Sem contar com os de aquecimento que existem nos videos de aulas em grupo, ministradas por Joseph no famoso Jacob’s Pillow. Quantidades por apparatus:

36 – Mat Pilates

71 – Reformer

63- Cadillac

54 – Wunda/high Chair (sem contar com os da Baby Chair)

20 – Spine corrector

16 – Ladder Barrel

13 – Magic Circle

9 – Acessórios: Bean Bag, Finger corrector, toe corrector, foot corrector e Breath-a-cizor.

7 – Ped-o-pull (ped pole)

Total: 289 exercícios originais. Para quem nunca fez Pilates e está lendo este post, é importante informar que uma aula para iniciante, nível básico de duração de 1 hora, por exemplo, utilizamos uma média de 15 exercícios contando com um aquecimento (o Pre-Pilates), sem nenhum intervalo durante a aula. Por isso dizer que o método é ultrapassado e limitado é uma grande mentira. E se uma escola se propõe a ensinar o Método Pilates, deveria no mínimo ensinar esses 289 exercícios. Caso contrário, deveria nomear o então novo Método com o nome que preferir.

2 – O Método Pilates Clássico é pobre em movimentos de extensão da coluna e só trabalha em flexões. ERRADO!

A famosa curva em “C” da coluna está presente em muitos exercícios de Pilates, quando o trabalho é para ser em flexão do tronco, mas não é verdade que só existem movimentos em flexao!! Se você aprendeu os exercícios criados por Joseph, apenas no trabalho do Mat Pilates que é a sua essência composta de 34 exercícios originais descritos em sua obra Return to Life, vemos que existem 18 exercícios (MAIS DA METADE) em que a coluna é trabalhada em extensão, onde 11 tem um dos focos musculares nos músculos extensores da coluna vertebral, seja ativamente ou estabilizando, são eles:

Swan Dive 

One-leg Kick

Double Leg Kick

Scissors

Bicycle

Shoulder Bridge

Swimming

Leg Pull front

Leg pull

Rocking

Push-up

3 – A linha Clássica trabalha com a coluna totalmente retificada (reta). ERRADO!!!!!

Esse é talvez um dos conceitos mais distorcidos. A linha clássica prioriza o indivíduo! Joseph trabalhava em sua maioria aulas individuais em seu Studio, progredindo seus clientes a partir de suas habilidades e limitações. Além do mais, dizer que ele trabalhava com a coluna completamente reta é impossível, acredito que essa afirmativa já morre a partir do momento em que a coluna cervical por exemplo nunca está retificada em seus exercícios!

Joseph Pilates era auto-ditada e não era um profissional da saúde ou do movimento com formação acadêmica ,e muitas vezes nao sabia externar /especificar seus conceitos, por falta de estudos científicos e dificuldade com a língua inglesa . E muito pelo contrário do que se acha, ao invés de lesionar as pessoas com seu Método ele até reabilitou muitas pessoas. Os instrutores do Pilates Clássico avaliam qual a melhor colocação da postutra ideal para cada indivíduo e para cada exercicio. Não existe uma só postura para pelve/coluna lombar. 

Sim, é verdade que na época em que ele criou o método ainda nao sabiamos que trabalhar com a coluna lombar e a pelve neutras, mantendo as curvaturas fisiologicas da coluna, faz com que sofremos menos sobrecarga e compressão. Porém, isso não se aplica a todos os indivíduos quando se trata de movimentos do Método Pilates e do corpo humano sempre, principalmente do repertório de solo. Cada indivíduo tem um corpo diferente, com compensações posturais diferentes, talvez lesões , desvios, etc. 

Por exemplo, para um indivíduo com hiperlordose, manter a neutra e super difícil, até nos exercicios básicos, e o aluno iniciante a maioria das vezes também. Eu por exemplo, já sou o contrário, eu tenho retificação lombar e hipermobilidade articular, com a prática do Pilates Clássico eu melhorei muito a minha postura pois trabalho o meu corpo naturalmente, me movimento tentando encontrar a minha postura ideal, que pode ser diferente da sua e que é diferente da de outra pessoa.

Se avaliarmos a obra Return to Life, Joseph nunca menciona que a coluna deve ser completamente reta ao praticar a Contrologia. As únicas vezes que ele faz o uso da palavra FLAT (RETO) é para se preparar para exercícios de flexão da coluna, a maioria se iniciam na posição deitada. Ele quer dizer para levar a lombar ao solo e sempre para se preparar para uma flexão, um movimento pequeno e profundo, não é para sair tirando o sacro do chão em uma grande retroversão como acham, o abdomem é quem faz esse acionamento profundo. E a coluna cervical está com a lordose fisiológica sempre preservada nas fotos, nunca retificada, talvez até flexionada demais às vezes. O fato é que a região lombar entra na curva acompanhando a flexão de toda a coluna e não fica reta.

Portanto, dizer que a linha Clássica prioriza o trabalho de força com a coluna reta é também um conceito muito distorcido. Existe aí uma confusão do que a ciência dizia e se aplicava na época e da aplicabilidade no Método diretamente em cada exercício.

Existem termos e posturas fundamentais como imprint e scoop que acredito também contribuirem para este equívoco, por profissionais que não são da linha Clássica não terem estudado desta forma e por isso não saberem como funciona na prática, simplificando com o que acham ou “ouviram falar” de outro da mesma linha Contemporânea.

Mas essa discussão de pelve neutra, pelve imprint, retificação, retroversão, anteroversão daria outro post, quem sabe não falaremos na semana que vem. O que pode-se afirmar é: a linha clássica não trabalha com sobrecargas em nenhuma articulação, prioriza o alongamento axial da coluna vertebral SEMPRE e todas esses mitos hoje falados como verdades por aí, dependerá é do instrutor que está aplicando a técnica, da condução da aula, seja da linha Clássica ou Contemporânea, NÃO sendo uma prioridade e característica do Clássico trabalhar sempre com a coluna reta ou em retroversão!

Eu e meu mestre Rodrigo Nanô, com quem fiz minha formação no Método Pilates Clássico , por quem tenho profunda gratidão de ter tido paciência para aguentar meus erros, minhas dúvidas e me deu coragem para enfrentar toda uma vida nova dentro da minha carreira , a qual dedico toda a minha vida! Março 2013.Foto: arquivo pessoal.

Então, se você é Instrutor do Método Contemporâneo, sugiro, que assim como eu (também fui por 6 anos, e fiz outra formação na linha Clássica) que completo em poucos meses 10 anos de carreira no Pilates, faça Workshops da linha Clássica para que você possa também conhecer a origem do que você trabalha. Independente de qual linha decidir seguir acho que é dever de qualquer indivíduo que se propõe a trabalhar com uma técnica, que conheça suas raízes para construir seu raciocínio dentro dela e se achar necessário, criar algo novo, sabendo bem de onde veio e pra onde vai.

Se você é Instrutor do Método Clássico nunca deixe de se atualizar em Congressos, cursos e workshops. A educação continuada, isso sim, é o maior diferencial de um profissional.

Se você é praticante de Pilates conheça as duas linhas e escolha a que seu corpo se adaptou melhor as suas necessidades e objetivos.

Se você nunca fez nenhuma aula de Pilates, agende agora mesmo e não vai se arrepender. 🙂

Para aqueles profissionais que não tem tempo e não podem investir em educação continuada no momento, sugiro uma assinatura no portal de aulas para instrutor : o pilatesology.com, apenas com aulas da linha Clássica.

Abaixo segue um exemplo de uma prática iniciante do incrível Jean Claude Nelson do Bluebird Pilates da Alemanha. Jean é instrutor da linha Clássica, treinado por Romana Kryzanowska, a pupila do Joseph Pilates que manteve o seu trabalho vivo durante a sua vida e deixou um enorme legado pelo mundo.

Jean Claude estará presente no Brasil ministrando aulas e Workshops no Congresso Classical Pilates Brasil, o primeiro congresso no Brasil 100% Clássico aberto à todos os instrutores do Método.

Para se inscrever acesse: http://www.classicalpilates.com.br/2015/

Um bom retorno à vida a todos!

Myra

IG: @myrapilates

3 comentários em “Distorções e verdades sobre o Pilates Clássico – Por Myra Hirano

  1. Este post é muito esclarecedor, fiz um curso à 7 meses e tinhame exatamente essa dúvida, muito obrigada por compartilhar esse conhecimento. Após este post estou muito animada em me aprofundar no método clássico, se puder me ajudar agradeço imensamente.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s